terça-feira, 22 de março de 2011

Funny Girl (1968)

Foto 1 - Barbra Streisand em 'Funny Girl'

Musicais, realmente, não me atraem. Sempre fico irritado pelo fato das pessoas começarem a cantar do nada. Sem motivo aparente, elas são tomadas por algum tipo de ‘entidade cantora’, e saem desembestadas saltitando e entoando canções – muitas vezes chatas, vale enfatizar. E sem fugir a regra, Funny Girl é mais um deles. O filme é bastante irregular, há uma mescla do melhor do William Wyler com o pior do gênero. Em minha opinião, os melhores momentos da Barbra Streisand são quando ela não está cantando. Ou seja, quando ela está ou encenando comicamente – ela consegue realmente extrair algumas gargalhadas do expectador – ou quando está atuando dramaticamente. Além disso, o carisma da Streisand é inegável e, por isso, ela consegue encantar qualquer um. Novo talento – era o que a atriz era naquele momento -, boa atuação unido a carisma, com a marca da direção do Wyler fazem o filme não cambalear para o piegas. É interessante a tomada do Wyler na cena em que se faz uma paródia do ‘O Lago dos Cisnes’. Esse mesmo estilo pode ser visto em Jezebel quando Bette Davis e Henry Fonda estão no baile dançando a valsa, é simplesmente sensacional! Para finalizar o comentário sobre a película, eu digo que não é um filme memorável, no entanto, questões conjunturais o fazem ser lembrado. Uma dessas coisas é o Oscar da Streisand que foi dividido com a grande estrela Katharine Hepburn, sendo as duas as vencedoras do ano.

Irei tomar liberdade, e escrever sobre o ‘comandante’ Wyler. Ele possui doze indicações ao Oscar, na categoria direção, tendo vencido em três oportunidades. Além de ter recebido o Irving G. Thalberg Memorial Award – prêmio concedido a produtores de cinema cujo trabalho reflete constantemente uma produção de filmes de qualidade. Uma característica marcante nesse diretor, eu acredito que seja a valorização dos seus atores nas suas películas. Sem dúvida alguma, ele prezava pelas atuações de qualidade, onde a Barbra Streisand se inclui com sua ‘Funny Girl’. De um rápido levantamento feito por mim – ou seja, a informação pode estar incompleta, outros atores podem fazer parte dessa lista – em nove filmes dirigidos pelo Wyler, treze atores receberam um Oscar por suas atuações, sendo que sete na categoria principal de melhor ator/atriz. Ver tabela abaixo.

Tabela 1 - Na tabela figuram vários nomes de peso da sétima arte, todos eles foram dirigidos pelo William Wyler.
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Funny Girl (Funny Girl - A Garota Genial), Estados Unidos - 1968. Dirigido por William Wyler. Com: Barbra Streisand, Omar Sharif, Frank Faylen. 151 minutos. Gênero: Drama, Musical.

Nota: 7.0

segunda-feira, 21 de março de 2011

Hævnen / In a Better World (2010)

Foto 1 - Os protagonistas do filme

Imaginem um mundo regido pela Lei de Talião: olho por olho e dente por dente. Imaginem um lugar onde os indivíduos pudessem fazer justiça com as próprias mãos. Imaginem a lógica hobbesiana do ‘homem é lobo do próprio homem’ sendo aplicada a você ou aos seus familiares. Mesmo que em muitas circunstâncias essas noções pareçam justas, será que são tão neutras e será que não trazem consequências nocivas para o convívio em sociedade?

‘Em um mundo melhor’ temos duas realidades. Um médico, provavelmente, participante de algum programa de ajuda humanitário na África procura, não só ensinar ao filho que agressão não se responde com agressão, como no exercício da sua função, ser ético, mesmo quando isso é difícil. Por outro lado, temos duas crianças com seus 10/11 anos que acreditam que valentões não podem sair ilesos, daí passam a tratar o mal com um mal ainda maior, no intuito de não serem confundidos com covardes.

Temos um ótimo filme com esses temas aparentemente ordinários. No entanto, a combinação de uma direção segura da Susanne Bier, com um excelente elenco nos proporciona momentos de tensão, drama e reflexão. A cada momento, diretora e atores vão ultrapassando os limites da violência numa escala, onde mesmo que indiretamente, outras vidas/pessoas são incluídas. Claro que não são dadas respostas para todas as questões levantadas, mas Bier consegue puxar literalmente o espectador para dentro da trama. Não sei se estou ficando bobo, mas me deixei levar pelo roteiro. Em certas cenas, sabemos o que vai acontecer, no entanto, não ficamos menos surpresos quando os fatos ocorrem.

Um pouco fora do filme, mais um desabafo. No longa, vivenciamos uma relação de amor e ódio. Há uma criança bem mimada, cujo pai não toma nenhuma atitude. São esses lugares ‘politicamente corretos’, não há castigos, o menino sai a hora que quer de casa, brinca com o que quer. Se há algum jurista lendo esse texto, os pais não podem ser responsabilizados pelas atitudes dos filhos? Ainda mais quando de grandes proporções como a que vemos na película? No mesmo sentido, na mesma onda de atitudes corretas, enquanto existe um impasse na direção da escola em resolver os problemas de bullying, as crianças tomam suas próprias providências, e posteriormente a coordenação não sofre nenhum tipo de punição. Enfim, são apenas algumas coisas que revoltam, e que poderiam acontecer com qualquer um na vida real. Por tocar em questões bem relevantes e todo o resto discutido, é um filme que vale muito a pena ver! Só um comentário extra, é patético o Brasil querer competir com um filme dessa magnitude, mandando para a competição seu candidato: ‘Lula, o filho do Brasil’. É de fazer rir!
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Hævnen (Em um mundo melhor), Dinamarca/Suécia - 2010. Dirigido por Susanne Bier. Com: Mikael Persbrandt, William Jøhnk Nielsen, Markus Rygaard, Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm. 119 minutos. Gênero: Drama.

Nota: 9.5

domingo, 20 de março de 2011

The Pervert's Guide to Cinema (2006)

Foto 1 - Cena do documentário que remete ao clássico 'Os Pássaros - 1963'

Essa versão é uma atualização de um texto que já escrevi com o título - Oscilando entre a "ficção" e a realidade – em um outro blog há quase três anos.

O seguinte texto versa sobre o filme, The Pervert's Guide to Cinema (2006), e tenta sistematizar os principais nexos lógicos que norteiam a trama. O autor promove uma discussão sobre grandes obras do cinema mundial, contrapondo-as as teorias da psicanálise. Realiza um debate de um lado enfatizando o que determinados filmes dizem sobre a construção das fantasias (ficção/realidade) humanas e por outro lado, como a psicanálise interpreta tais fenômenos. O meu intuito foi delinear os principais pontos de argumentação e tentar, na medida do possível, incrementar o debate com alguns conceitos sociológicos mesmo que de maneira rudimentar. Enfim, abaixo você encontrará algumas divagações próprias do Zizek e algumas oscilações da realidade minhas.

Slavoj Zizek é um filósofo lacaniano-marxista de Ljubliana, capital da Eslovênia. Tem escrito livros com temáticas com o cinema de Hitchcock, Lênin, a ópera, e os ataques terroristas de 11 de setembro. A meta da obra de Zizek é combinar a crítica marxista do capitalismo com informes psicanalíticos para desmascarar a forma como opera o capitalismo sobre a imaginação pública. Em 1990, Slavoj Zizek foi candidato a presidência da República da Eslovênia nas primeiras eleições democráticas do país.
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O problema a ser considerado aqui, não é responder se nossos desejos são saciados ou não! No entanto, é saber o que desejamos. Não há nada de espontâneo no desejo humano. Os desejos são artificiais (construto social), e devemos, portanto, aprender a desejar. O cinema é assim a arte pervertida por excelência. Ele não te dá aquilo que deseja, mas sim te diz como desejar.

Imagine uma cena onde diante dos seus olhos, uma atriz qualquer, vê vislumbrada os bastidores do que ocorre nos vagões de um trem. Observação, o trem continua em seu percurso, e é como se numa brecha do espaço-tempo, ela (atriz) permanecesse inerte e atenta a todos os movimentos dos vagões. Porém, mesmo diante de seus olhos, ela não pode interferir, pois é apenas um indivíduo passivo no processo construtivo da relação. Fazendo assim uma analogia ao que ocorre na relação direta entre espectador e a arte cinematográfica. Por fim, quando um rapaz que está em um dos vagões, oferece-lhe uma taça de bebida, é como se o filme - o macro - oferecesse a ela algo possível e acessível ao desejo.

Uma visão crítica lembra-nos que a realidade não se restringe aos momentos vividos. A realidade social é bem mais complexa do que nossos momentos particulares. Várias ações pretendidas ou não-pretendidas se reúnem num processo de síntese para a realidade tornar-se completa. A realidade é mostrada frente a frente à ficção. O autor defende que dentro da própria realidade há um quê de ficção. E o essencial está não em descartar a ficção, mas perceber a realidade que há dentro da ficção.
Numa análise psicológica, ele defende que procedimentos traumáticos, violentos ou que possuam gozo em demasia, produzem resultados internos que rompem com as "coordenadas da realidade". E que posteriormente são transformadas em processos intrinsecamente repletos de elementos da ficção.

No filme Os Pássaros (1963), a ação e o ataque dos pássaros nada mais é do que a interferência da estrutura social no âmbito particular. O filme retrata uma relação típica do complexo de Édipo mal resolvido. Tal realidade é interrompida pela chegada de um outrem que rompe com os valores compartilhados anteriormente. Ele analisa o fenômeno como sendo "a explosão do superego materno". Isso seria numa ótica da psicologia. Numa perspectiva sociológica, o fenômeno poderia ser interpretado como um processo de não-internalização das regras sociais ao longo do processo de socialização primária. O que culminaria em termos durkheimianos-parsonianos numa "anomia social". Tendo como conseqüências, os sentimentos de culpa ou como se a sociedade estivesse "esmagando" sua cabeça.

Ao analisar o filme Psicose (1960), Zizek problematiza a distribuição espacial onde se desenrola a trama e discute a caracterização dos sistemas de personalidade. Os níveis da psiquê estariam localizados da seguinte maneira: 1) o térreo seria o ego - o ambiente da normalidade, onde se respeita os padrões de comportamento social; 2) no primeiro andar encontra-se o superego maternal; e 3) no sótão temos o id. A relação entre o superego e o id é direta. O superego é uma entidade "obscena" que nos influencia com ordens impossíveis. Características fundamentais: 1) o superego é hiperativo; 2) o ego é racional, egoísta e calcula suas ações todo o tempo; e 3) o id é misterioso, porém, ao mesmo tempo em que é infantil e inocente, possui também um mal intrínseco.

A voz representaria a dimensão da possibilidade de controle das reações dos outros indivíduos. (Se possível, ler algo sobre o sociólogo canadense, Erving Goffman). Aqui, ele trata dos "objetos parciais" e autônomos. Explica que tais atitudes, em relação aos “objetos parciais” não são exteriores à sua "natureza". Elas, na verdade, fazem parte da sua personalidade. Esqueça o fato de que ao mesmo tempo em que se ouve pode-se ver a cena de um filme. Imagine, então, uma situação onde apenas o sentido da audição é possível, a imaginação decorre daquilo que você mesmo imagina que faria e não o que realmente acontece. Pois o que se passa não é necessariamente aquilo que você imagina, mas você imagina porque gostaria que passasse como você quer.

Por que precisamos do suplemento virtual da fantasia? O inconsciente - os desejos gerados no inconsciente geram culpa. A fantasia é produto do inconsciente, e como tal é um sonho. Quando a fantasia é realizada o que vem em mente é um sentimento de pesadelo. Em relacionamentos desta magnitude, o que vale e o que está em jogo são as circunstancias e o meio físico, não a outra pessoa em si.

Não existem emoções pré-determinadas. Todas elas, com exceção da ansiedade, como dita Freud, são construídas. Poderia então o cinema proporcionar a emoção da ansiedade? Para Zizek, o cinema é a arte das aparências. Ele nos diz algo sobre a realidade. Nos fala como se constitui a realidade. A realidade é constituída de maneira fetichista. Ou seja, determinados objetos encarnam significados que não necessariamente pertencem a eles. Em certas cenas, sabemos o que vai acontecer, no entanto, não ficamos menos surpresos quando os fatos ocorrem. Mesmo assim, o problema não se encontra no fato de não levarmos a sério aquilo que é apenas uma ficção. Mas é o contrário, o engano está em não levar a ficção em consideração. Ele cita o exemplo de indivíduos que escolhem em um jogo personagens para atuar. Dentre varias opções, o ator seleciona aqueles com características sádicas, ou estupradores, ou qualquer outra coisa. Na verdade, esse sujeito supre suas necessidades internas de maneira a minimizar suas carências reais, adotando características no jogo de uma pessoa forte e promiscua que representa uma auto-imagem falsa sua. Esta é a leitura ingênua. A interpretação mais rebuscada mostra que essa imagem falsa adotada representa o próprio "eu" do indivíduo. E que na vida real devido as sanções e normatizações sociais, não se pode deliberadamente liberá-las. Assim, precisamos de uma ficção para mostrar aquilo que realmente somos.
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The Pervert's Guide to Cinema (O Guia Pervertido do Cinema), Reino Unido, Austria, Holanda - 2006. Dirigido por Sophie Fiennes. Com: Slavoj Zizek. 150 minutos. Gênero: Documentário.

Nota: 9.0

terça-feira, 15 de março de 2011

Lixo Extraordinário (2010)

Foto 1 - Um dos sensacionais quadros do documentário

Duas coisas chamam atenção em ‘Lixo Extraordinário’, a primeira é o estranhamento inicial do Vik Muniz e dos que lhe rodeia ao saber do seu novo projeto, e a segunda, é a revelação de uma realidade que parece tão distante para nós. Sem dúvida alguma, o artista plástico conseguiu se reinventar e produzir um trabalho tão original quanto suas outras criações. Quem imaginaria que do lixo poderia surgir quadros tão singelos, leves e belos? Mais que fazer sua arte, Muniz mostrou o capital humano, nos presenteou com histórias de vida de pessoas sofridas, humildes e batalhadoras. E ao mesmo tempo, ficou preso a um dilema: O que fazer, ou o que será dessas pessoas após o trabalho que desenvolveram? Mesmo que todos se orgulhem da sua profissão de catador de material reciclável, alguns deles enfatizavam que aquilo não é vida para ninguém. Essas questões são juntamente mostradas ao processo criativo dos futuros quadros.

O ‘incrível’ é como os catadores trabalham a total revelia do poder público. Aparentemente, o problema não é trabalhar com lixo, no entanto, são as condições materiais e a degradação física que essas pessoas estão submetidas. Ninguém tem dúvida do n número de doenças a que elas estão expostas. Não há roupas apropriadas para o manejo do material, não há um serviço médico, nem mesmo básico. Por exemplo, há uma série de vacinas que eles deveriam tomar, e que provavelmente não foram tomadas, às vezes, até mesmo por desinformação. Imaginem o índice de mortalidade que não deve haver entre esse grupo! Um deles mesmo morreu, não sei se por conta do seu trabalho – a causa final foi câncer de pulmão – mas sabe-se lá. Não há um projeto educacional, e como se sabe, há uma reprodução das condições de vida, ou seja, a herança familiar interfere diretamente no nível de cultura que as novas gerações receberão. Não há nenhuma assistência familiar, a jovem retratada, com dezenove anos, já era mãe de duas crianças e ao final, estava esperando um terceiro.

O documentário tem o mérito de chamar atenção para várias facetas do mundo. Várias problemáticas são consideradas: a questão da produção absurda de lixo e da reciclagem, as condições desumanas de vida das pessoas, o descaso do poder público, a reivindicação de direitos através de um movimento oriundo dos catadores, o encontro com o outro (no sentido antropológico), a fama, e tantos outros aspectos. O documentário consegue captar e transmitir sentimentos, sem ser sentimentalóide. Vemos que todos ali estão aptos a acertar, errar, se arrepender e se recuperar, ou cair no mesmo ou em um novo erro. Mas pelo menos, todos os participantes das filmagens, ao menos, buscam uma única coisa: uma vida melhor. Muniz com esse projeto demonstra não apenas ter ajudado aos personagens da história, como também, ter sido completamente transformado por eles. ‘Lixo Extraordinário’, em suma, é tão bom quanto o próprio trabalho artístico do Vik Muniz!

Para acessar o site do documentário, clique aqui.
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Lixo Extraordinário, Brasil/Reino Unido - 2010. Dirigido por Lucy Walker. Com: Vik Muniz. 99 minutos. Gênero: Documentário.

Nota: 9.0

segunda-feira, 14 de março de 2011

Salò o le 120 giornate di Sodoma (1976)

Foto 1 - Cena do filme Salò o le 120 giornate di Sodoma

Numa Itália em pleno regime totalitário, Pasolini disserta sobre o descontrole do poder em um verdadeiro ‘teatro dos horrores’. Um grupo de importantes personalidades da sociedade italiana ligadas à Igreja e ao Estado se une para realizar os seus desejos mais íntimos e indizíveis. Esse é um filme que desperta no espectador sensações – as mais diversas e imagináveis - associado ao fato que Pasolini filma tudo com realismo extremo. É verdade, qualquer um poderia classificar o filme como nojento, sádico, repugnante ou adjetivos que os valham. E certamente, você não estaria errado/a. A verdade é que o diretor - sempre crítico nas suas produções - tem uma mensagem por trás de toda essa encenação. Não à toa, a película se passa em pleno regime de Mussolini, e os protagonistas são figuras ligadas a altos escalões do governo e à Igreja Católica Romana.

Após ver o filme, surgem questões: Existem instintos? O que é o poder absoluto de uns sobre outros? O que pode causar o poder quando não controlado? Fantoches é isso que se torna uma pessoa em uma situação caótica, como a mostrada em '120 dias de Sodoma'. Ressalva é necessária porque há alguns ‘fantoches’ que dependendo do cenário proposto pelo executor, também sente prazer. Há algumas cenas que evidenciam essa realidade. Contudo, em algumas das discussões fala-se que o prazer não está na morte dos indivíduos, mas na possibilidade de repetir determinada ação infinitas vezes. Ou seja, o sofrimento do outro é um elemento fundamental para a realização dos desejos dos executores.

Além disso, e o mais importante, ela é uma película que nunca ficará datada. Afinal de contas, ela trata da hipocrisia tão bem disfarçada naquela sociedade, sociedade que tem como alicerces a moral, a religião e os bons costumes. Não é um filme para todos os estômagos, quem quer vê-lo por pensar na excitação que as cenas de nudez podem proporcionar irá se decepcionar, principalmente, à medida que o longa se desenvolve e juntamente as perversões. O que é preciso enfatizar é que o diretor desenvolve uma alegoria do momento político que a Itália, em particular, e o mundo, em geral, viviam. O filme é um espetáculo de torturas, humilhações e morte que se confunde perfeitamente com a barbárie para além dos muros do Cinema – cujo espectador vivia. Não é sem propósito que dentro da casa apenas o sexo forçado é aceito. Assim, o sadomasoquismo é a expressão máxima da opressão/imposição e, portanto, qualquer relação que fuja a esse princípio torna-se discriminável e passível à morte. Ao ver ‘120 dias de Sodoma’, tentem esquecer o escatológico, e reflitam sobre o mundo nos idos dos anos de 1940, você verá que a película fará bem mais sentido.
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Salò o le 120 giornate di Sodoma (Saló ou os 120 Dias de Sodoma), França/Itália - 1976. Dirigido por Pier Paolo Pasolini. Com: Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Umberto Paolo Quintavalle, Aldo Valletti. 117 minutos. Gênero: Drama.

Nota: 9.0