quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Blog em recesso

Esse é um comunicado aos poucos, porém, bons frequentadores desse blog. Hoje estou viajando para praia, e só devo voltar depois do ano novo. Em virtude disso, espero ficar afastado da internet, apenas descansando durante esse tempo. Pelo menos é o que eu espero! O lado bom disso é que já preparei meu arsenal de filmes, se por um lado não vou escrever no blog, por outro, terei uma série de resenhas prontas para serem postadas assim que voltar, ou assim que a saudade do chá de poejo bater. A todos e todas um excelente final de ano!

Diamante de Sangue (2006)

Foto 1 - Leonardo DiCaprio e Djimon Hounsou em Diamante de Sangue

A trama de "Diamante de Sangue" gira em torno do comércio de diamantes de áreas de conflito, no caso do filme, em Serra Leoa. Tal dinâmica seria a propulsora da guerra civil, no momento em que representaria o capital necessário para comprar armas. Questões políticas importantes são tocadas rapidamente no longa, além claro do fato da guerra civil, também é mostrado a rede de interesses dos envolvidos. Por exemplo, o mesmo fornecedor que vende armas ao governo, vende aos "rebeldes". Não há escrúpulos, apenas interesses. A lógica do conflito é o seguinte, se por acaso tirarmos o nome Serra Leoa e colocarmos Venezuela, trocarmos diamante por petróleo, ou, tirar Serra Leoa e por EUA/Iraque, entendemos o poder que os recursos minerais possuem nos projetos políticos de cada governo e as verdadeiras motivações para uma guerra.

Para quem apenas ler o primeiro parágrafo, vai pensar, que filmão! Ledo engano, nele, há muita ação, pouca ênfase no político, atores bonitos, más atuações, muita morte, e claro, uma história de amor. Até hoje me pergunto o porquê de Leonardo DiCaprio ter sido indicado ao Oscar de melhor ator. A quem ele convence que foi um guerrilheiro atuante na guerra civil de Angola antes de se envolver com o tráfico de diamantes? Ele deveria ter visto mais Apocalypse Now (1979), Platoon (1986) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), os dois primeiros para saber como se portar numa selva, e o último, para saber como agir numa guerra, e entender o que é ser um verdadeiro ator.

O que salva o filme são algumas nuances interessantes sobre o conflito generalizado em toda África, na disputa de quem consegue poder e riqueza, através dos recursos minerais existentes naquela terra. No mais, a película é repleta de momentos melodramáticos baratos. E pode ser resumida da seguinte maneira: O contrabandista de diamantes (Leonardo DiCaprio) vira mocinho ao salvar o pescador (Djimon Hounsou) e seu filho. O "ex-vilão" morre no final, e por isso não consegue ficar com a mocinha (Jennifer Connelly). Fica claro que o "bom moço" deu a sua vida para salvar os outros, mas antes de morrer, telefona para a garota e declara todo o seu amor antes do seu fim. Se mesmo com tudo isso as perfomances fossem boas, até que daria para suportar o longa, mas nem isso, a Jennifer Connelly nem parece a mesma que fez Réquiem para um Sonho (2000).

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Blood Diamond (Diamante de Sangue), Estados Unidos - 2006. Dirigido por Edward Zwick. Com: Jennifer Connelly, Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou. 138 minutos. Gênero: Drama, Suspense.
Nota: 6.0

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sangue Negro (2007)

"I drink your milkshake!"

Clichê, antiquado, mais do mesmo? Será que essas são palavras e expressões adequadas para definir o filme dirigido pelo Paul Thomas Anderson? Afinal de contas, insanidade e ganância são temas para lá de batidos no cinema, principalmente, o norte-americano. No momento, lembro de dois clássicos que retratam bem essas questões, a saber, Cidadão Kane de 1941 e Assim Caminha a Humanidade de 1956. Sendo que a semelhança deste último é maior ainda, visto que a sua trama também se passa no oeste americano e também em torno do petróleo.

No entanto, uma coisa me chama atenção no longa Sangue Negro (2007). Normalmente, uma coisa que me deixa ligado nos filmes são as atuações femininas, coisa que não é possível nessa película em específico. Não estou aqui para falar do enredo do filme, que de fato não é original, original é a sua direção e a atuação do Daniel Day-Lewis. Sigo esse ator há algum tempo, para ser preciso, desde do longa A insustentável leveza do ser de 1988, mesmo ele já tendo atuado muito antes de 88. Assim, não é surpresa nenhuma para mim sua perfomance dessa vez como Daniel Plainview. E é sobre isso que quero discutir.

Acho que desde o Hannibal do Anthony Hopkins que eu não via um ator refletindo o tumultuoso interior de um personagem de maneira tão brilhante. Além disso, no caso do Day-Lewis, o Plainview não é mostrado por completo desde o início, pelo contrário, o ator vai descobrindo o personagem aos poucos, suas transformações, suas pertubações. Pertubações porque ele é um poço de contradições, tão profundas quanto os poços de petróleo que perfura. Ao mesmo tempo, ele é fascinante, charmoso, astuto, inteligente, consegue convencer a todos que é a melhor opção para a extração do petróleo da localidade. Mas também é inescrupuloso, é capaz de utilizar uma criança como meio para conquistar a simpatia das pessoas nas suas investidas. O desejo pelo poder é outra de suas características e Plainview demonstra fazer qualquer coisa para consegui-lo, apesar que neste aspecto, ele também é bem contraditório. Claro, poder é uma de suas ambições, mas também aparenta ser um Robbin Wood, no sentido de mostrar claramente a personalidade do pastor Eli. Só uma observação, as aparições do Paul Dano são bem convincentes e dignas de comentário. Confundiria-o, sem dúvida, com algum desses pastores que se pode ver nas madrugadas da tv brasileira.

Acredito que o diálogo travado por ele (Plainview) e seu suposto irmão, transcrito abaixo, é o código definitivo para desvendá-lo.

"Não gosto de dar explicações. Sou competitivo por natureza. Não quero que ninguém tenha sucesso. Odeio a maioria das pessoas. Às vezes, olho para elas e não vejo nada de agradável. Quero ganhar o suficiente para me isolar de todos. Vejo o que de pior as pessoas tem. Não preciso conhecê-las para saber disso. Desenvolvi o meu ódio ao longo dos anos, pouco a pouco."

Daniel Plainview

Tudo isso tem uma razão. As pessoas que sofrem para conseguir um objetivo, geralmente, tornam-se reclusas, até porque enquanto você não é ninguém, as pessoas ao redor o tratam como tal. No começo era ele e a sorte, tanto é que se percebe seu desapego pela vida, isso fica claro no início do filme, quando ele acende as dinamites no local onde trabalha, e sai de lá como se estivesse soltando traque de massa. Ou seja, foi um cara que conviveu com a morte e o perigo de perto. Trabalhou noite e dia no melhor estilo do americano capitalista. Plainview é um homem destrutivo, que luta pelo monopólio e pelo poder constantemente, e como se sabe, essa busca desenfreada tem um preço caro. E tudo isso pode ser apreciado num magnífico filme do Paul Thomas Anderson, e num incrível momento do Daniel Day-Lewis, que recebeu merecidamente seu segundo Oscar por essa atuação.

P.S.: Diferentemente do que tem acontecido, nos últimos tempos, salvo exceções, na categoria de melhor atriz, a Academia tem premiado bem os melhores atores, essa constatação vale um post.

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There Will Be Blood (Sangue Negro), Estados Unidos - 2007. Dirigido por Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Paul Dano. 158 minutos. Gênero: Drama.
Nota: 10.0

domingo, 13 de dezembro de 2009

Dr. Strangelove (1964)

Foto 1 - Peter Sellers como Dr. Fantástico

Dr. Strangelove, lançado no ano de 1964, é um filme do cineasta Stanley Kubrick. Em português, recebeu o nome de Dr. Fantástico. O longa está ambientado no período da Guerra Fria, e principalmente, trata da paranóia norte-americano frente o perigo soviético. Tudo começa quando um general, que representa toda a obsessão militar por destruir o inimigo, resolve iniciar um plano ultra-secreto chamado "Plano R". Entretanto, o "Plano R" só deveria ser utilizado se houvesse um ataque russo em solo norte-americano. Esse plano seria uma reação imediata, com ataque às instalações nucleares soviéticas. O engraçado é que tudo isso acontece graças a paranóia do brigadeiro Jack Ripper (Sterling Hayden), que imagina que a "ameaça vermelha" está retirando a pureza dos fluídos americanos. Ele desenvolveu uma teoria onde a adição de flúor em vários produtos, da água até o sal, é uma estratégia dos russos para contaminar os americanos, daí ele só tomar água destilada ou da chuva. Pura loucura! Só que o pior ainda está por acontecer, os russos possuem um artefato nuclear que é acionado automaticamente em caso de ataque ao seu território. A arma é extremamente destrutiva, e deixaria a Terra inabitável por 100 anos.

Essa é uma obra de humor negro, sarcasmo puro. Há algumas falas inesquecíveis, uma delas é a recomendação do brigadeiro Jack Ripper aos soldados da sua base. Sobre um possível ataque, ele diz: "Se tiverem dúvidas, disparem primeiro, façam perguntas depois. Antes umas baixas acidentais, que perder a base inteira apenas por descuido." Além disso, é impagável ver o presidente dos Estados Unidos, Merkin Muffley (Peter Sellers), se comunicando com o primeiro-ministro soviético, chamado Dmitri. Quando o presidente americano fala do ataque em solo russo, "Dmitri, não adianta de nada ficar histérico numa altura dessas. Mantenha os pés no chão." Em todos os momentos o presidente americano mostra-se seguro, mas quando ele fala com Dmitri, fica extremamente inseguro, chegando a parecer uma criança. O ponto alto do filme chega com a aparição do Dr. Strangelove (Peter Sellers). Ele era um um ex-cientista nazista que com o fim do III Reich se torna conselheiro do presidente americano. O mais cômico dele são os seus arroubos nazistas. Ele possui uma síndrome na qual os membros parecem adquirir vida própria, ela é conhecida como Síndrome do Dr. Fantástico, ou Síndrome da Mão Alienígena (SMA). Inclusive, ele luta contra sua mão, que tenta esganá-lo. Fora as saudações nazistas que ele faz, chamando o presidente americano de Mein Führer, as suas soluções para os problemas são as mais excêntricas, quer dizer, não para ele, que se diverte e parece sentir prazer. Sensacional é a solução para a reprodução da espécie humana nas minas, visto que como disse, a superfície ficará inabitável por 100 anos. Nas minas, deverá haver uma proporção de 10 mulheres para cada homem, além de que, elas deveriam ser as mais atrativas sexualmente.

O longa termina com o Dr. Strangelove dizendo, "Mein Führer, eu consigo andar!". E é claro que ele está se referindo ao presidente americano, maior ironia que essa, não há. Ao mesmo tempo que o longa é cômico, é sarcástico. Ele toca em questões bem sensíveis, e é ainda mais impactante visto que foi lançado em plena Guerra Fria. Kubrick vai de uma análise do medo e paranóia vermelha até a obsessão do mundo masculino pelas mulheres. Peter Sellers nos é apresentado em três papéis, os quais estão brilhantemente interpretados por ele. Entretanto, um se destaca, é o hilariante, satírico e ao mesmo tempo aterrador, Dr. Strangelove. Ele é a síntese de como deve-se "deixar de se preocupar e amar a bomba". Imperdível para entender melhor o que de fato foi a disputa político-ideológica do século passado.
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Dr. Strangelove, Reino Unido - 1964. Dirigido por Stanley Kubrick. Com: Peter Sellers, George C. Scott. 93 minutos. Gênero: Comédia, Guerra.
Nota: 10.0

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sonata de Outono (1978)

Foto 1 - Liv Ullmann e Ingrid Bergman em Sonata de Outono

Entrar no mundo de Ingmar Bergman é conhecer as angústias e os demônios desse cineasta, e ao mesmo tempo, ficar cara a cara com os nosso próprios medos. O cinema deste sueco não é divertimento, poucos são aqueles que conseguem discutir questões tão particulares e existenciais de maneira tão profunda e bela. A experiencia de assistir a um de seus filmes, tanto emocionalmente, quanto esteticamente, não possui equivalente, muito menos, nos tempos atuais.

Um bom exemplo disso é o filme Höstsonaten (1978), em português, Sonata de Outono. Ele narra a história de uma mãe superficial e dominadora, chamada Charlotte Andergast, interpretada por Ingrid Bergman. Quero deixar claro, que o sentido de superficial aqui empregado, não está relacionado ao sentido de uma mulher alienada, visto que ela tem ciência de todas suas atitudes, se ela age assim é de maneira intencional. Charlotte após a perda de um amigo, com quem mantinha um relacionamento, viaja para a casa de sua filha que a convidou para passar uns tempos com ela. A filha, que se chama Eva, é interpretada por Liv Ullmann. Eva, em um primeiro momento, parece apenas possuir inveja da mãe, entretanto, com o desenvolvimento do longa, percebe-se que ela sofre intensamente por certas razões. A primeira é o fato de ter perdido seu único filho, o que a afastou do relacionamento com seu marido, e a segunda, é o recentimento e a mágoa que sente por sua mãe. Charlotte é uma pianista bastante conhecida, e que desde cedo nunca parou em casa, sempre esteve cuidando da sua carreira profissional. Logo, foi uma mãe relapsa que mesmo quando estava em casa não dava a atenção necessária a filha.

Entretanto, anos depois, na visita que Charlotte faz à filha, Eva, o passado volta à tona. A primeira coisa que a mãe descobre é que Eva cuida, atualmente, de sua também filha, Helena. Esta última, sofre de uma doença nervosa degenerativa, o que causa mais indiferença à Charlotte, que se pergunta, inclusive, o porquê dela não ter morrido ainda. No entanto, o foco do filme baseia-se nos confrontos diretos entre Ingrid Bergman e Liv Ullmann. E são nesses momentos que o espectador possui um sentimento de claustrofobia. Da mesma forma em que as personagens sofrem nas discussões, nós também nos percebemos diretamente envolvidos com a trama. Esta película vale mais que um desses filmes de terror. Ou seja, o drama psicológico vivido por essas mulheres tomam ar de pesadelo que se confunde entre o real e o imaginário.

Foto 2 - Cena do piano, Bergman e Ullmann, mãe e filha

As atrizes estão sensacionais, também, não esperava nada menos que isso dessa dupla, Bergman e Ullmann. A característica fundamental de suas personagens é a tristeza. Contudo, enquanto a primeira mostra-se orgulhosa, e pisa em seus medos com pé firme e impetuoso, a segunda mostra-se, afetada e abalada, ao não conseguir esconder a sua fragilidade. Uma cena, quero dizer, uma das cenas marcantes da película é a do piano. Nela, fica explícita as personalidades delas, e tudo isso, movido ao som marcante de Chopin. Eva possui uma interpretação de Chopin, tímida e introvertida, mas não errada. Sua mãe imediatamente percebe essas suas características. Ou seja, ela sente a personalidade da filha enquanto a música é tocada. Ao fim, Eva pergunta a mãe: Gostou?, e ela responde: Gostei de você. A filha, percebe que a mãe não gostou da sua apresentação, e então pede para que ela mostre como deveria ser a interpretação daquela composição. Charlotte, sem hesitar, senta-se ao lado da filha, e começa uma introdutória, porém esmagadora explicação daquele prelúdio. É aí que ela mostra a sua personalidade, ela diz sobre a composição: “Há dor, mas sem parecer”. E conclui, “Você precisa ser persistente e emergir triunfante”. Tudo isso fica melhor de ser entendido vendo a cena.


"Sonata de Outono" é um dos mais belos filmes do cineasta Ingmar Bergman, ele é ao mesmo tempo, comovente e extremamente realista. Cada expressão, cada momento, cada fala, tudo soa verdadeiro. Sua história narra mais uma complicada relação familiar, tema tão presente e caro para esse diretor. Ódio, contradições, angústia, desprezo, medo, tristeza, dúvidas, incertezas, remorsos, são adjetivos adequados para compreender a essência dessa película. Após um longo tempo sem se ver, o reencontro entre mãe e filha, inicialmente marcado pelo entusiasmo, logo muda, surgindo daí, um enfrentamento com cenas de marcante violência psicológica. As atuações de Ingrid Bergman e Liv Ullmann são excepcionais, tocantes, perturbadoras e admiráveis. É um filme imperdível para quem quer fugir desses lugares comuns a que somos levados a conviver. Por esse e outros (motivos e filmes), que Ingmar Bergman é o cara!
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Höstsonaten, Alemanha Ocidental, França e Suécia - 1978. Dirigido por Ingmar Bergman. Com: Ingrid Bergman, Liv Ullmann. 99 minutos. Gênero: Drama.
Nota: 10.0

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Los Abrazos Rotos (2009)

Foto 1 - Lena e Harry Caine

A mais nova película do Almodóvar chama-se Los Abrazos Rotos, em português, o título ficou, Abraços Partidos. A trama gira em torno do mundo do cinema, mais especificamente, no ambiente de produção de um filme, melhor dizendo, nos bastidores da filmagem. O longa tem três personagens principais, são eles: Lena (Penélope Cruz), Mateo Blanco / Harry Caine (Lluís Homar) e Ernesto Martel (José Luis Gómez).

Até então, Mateo Blanco é um diretor/escritor, no momento, envolvido com sua nova película, "Chicas y Maletas". Por outro lado, Lena é uma secretária que possui um pai doente, e trabalha numa grande empresa de um economista chamado, Ernesto Martel. Para variar, histórias aparentemente sem conexão, nas mãos de Almodóvar tornam-se altamente imbricadas e dependentes uma das outras. Ernesto Martel nutre uma paixão há bastante tempo por Lena, entretanto, isso só será exposto em um momento delicado da vida dessa moça, quando seu pai em estado terminal de cancêr, precisa de cuidados médicos, que nem ela, nem sua mãe podem pagar. Em seu socorro, Martel leva seu pai ao melhor especialista da Europa no assunto, isso se passa no ano de 1992. Em 1994, Lena e Martel estão vivendo juntos, até então, parece estar tudo bem entre os dois, mas a oportunidade de atuar no filme de Mateo Blanco, vai mudar as vidas de todos em 360º.

Los Abrazos Rotos parece para mim, uma autoavaliação do próprio Almodóvar. Não no sentido literal do termo, mas figurativamente. Melhor dizendo, seus segredos e influências estão expostos a olhos vistos. No filme é narrada a história de um diretor/escritor que se converteu em um personagem, no seu próprio pseudônimo. Pra mim é isso que Almodóvar é, um diretor e um personagem simultaneamente. Sua marca e seu estilo são únicos, as mesmas cores vívidas, e as mesmas histórias, em primeira análise, sem pé nem cabeça. Faz referência a um trabalho seu, Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), nos presenteia com a presença de alguns artistas que trabalharam nesse longa de 1988. Ele faz uma película para os apreciadores e conhecedores do cinema mundial, e do seu cinema em particular. Há referências ao roteirista Arthur Miller e à atriz Marilyn Monroe, à Bette Davis, à Audrey Hepburn, aos filmes, Fanny e Alexandre e Fellini oito e meio, e Viagem à Itália e Ascensor para o cadafalso, e à Ingrid Bergman e George Sanders, e à Jeanne Moreau, respectivamente, e aos cineastas Fritz Lang, Nicholas Ray e Jules Dassin.

Aproveitando esse momento, é bom dizer que Abraços Partidos estrutura-se a partir de dois referenciais. O primeiro é a história de vida de Arthur Miller, essa vai dar sentido ao relacionamento entre Ernesto Martel e o seu filho, e a busca deste último de se vingar do pai. A segunda é mostrada a partir de uma cena do filme Viagem à Itália, de Roberto Rossellini. Nele, um casal com problemas conjugais, vivido por Ingrid Bergman e George Sanders, visita as ruínas de Pompéia. Lá, eles encontram corpos calcinados pela erupção do Vesúvio, que destruiu a cidade. Duas destas vítimas, que morreram abraçadas, ficarão assim pela eternidade, o que comove aquele casal em vias do rompimento. Essa narrativa influencia, então, Lena e Mateo, que desejam viver e morrer abraçados tal como aqueles corpos em Pompéia, mas como o próprio título do filme pré-anuncia não será possível.

O filme na sua metade final fica mais interessante, coincidentemente, quando as viagens temporais se encerram e Penélope Cruz toma a telona. Esse jogo temporal é necessário para explicar ao espectador como surge toda a trama, mas nem por isso, deixa de atrapalhar no entendimento do roteiro. Cinematograficamente, Los Abrazos Rotos está uma beleza. Estou me referindo às conexões entre texto e cenário. Cito quatro exemplos. 1) Lena é uma mulher infeliz, e vive com Ernesto Martel mais por gratidão e comodidade que por amor. Sente-se sufocada com o relacionamento, e nada melhor que a cena de sexo em Ibiza onde os dois estão embaixo dos lençóis para demonstrar isso. Neste momento, percebe-se a claustrofobia e a agonia que Lena sente ao se envolver com aquele homem. 2) O "acidente" da escada e momentos depois na sessão de radiografias no hospital representam as fraturas e o fim definitivo do relacionamento. Há uma relação direta entre a quebra dos ossos e o momento de Lena e Martel. 3) Quando Lena pede a Mateo para levá-la o mais longe daquele lugar, ou seja, longe de Martel e de tudo mais, imediatamente eles aparecem em um cenário/lugar que nos remete diretamente à Lua. 4) Quando Diego, um outro personagem, diz a Mateo que está tentando reconstruir algumas de suas fotos, e imediatamente aparece aquele mosaico de fotos recortadas, significa dizer que o garoto estava tentando montar um quebra-cabeça para entender e saber do seu passado e do próprio diretor.

Para Almodóvar, todas as situações cotidianas estão passíveis de se tornarem histórias intrigrantes e interconectadas. Nesse mesmo raciocínio, acredito que ele continua a pecar por incluir algumas tomadas desnecessárias ao desenvolvimento do enredo principal. Ou seja, ele inclui acessórios que não auxiliam em nada na compreensão do argumento do longa. Mas se diga de passagem, que há muito tempo ele recebe esse tipo de crítica. Por outro lado, aponto três qualidades que o fazem ganhar bônus. A primeira é a que já apontei, trata-se das conexões que faz para relacionar planos sensoriais diferentes. Especificamente, o visual com o auditivo. O segundo é a atuação dos atores. Tanto o Lluís Homar, quanto a Penélope Cruz estão muito bem em seus respectivos papéis. O ator faz uma composição corporal muito boa, e Penélope, ao mesmo tempo que está sensual, está bem, dramaticamente e comicamente. E o terceiro ponto é o uso que faz da intertextualidade e da paródia. Ou seja, é um filme feito para os amantes da sétima arte. Não são poucas as relações existentes em Los Abrazos Rotos, onde este, cita outros filmes, diretores, atrizes e roteiristas. Ao mesmo tempo, o próprio Almodóvar ainda em uma relação intertextual cita o seu próprio filme, Mulheres à beira de um ataque de nervos, com o objetivo de ironizá-lo, tornando-o mais dramalhão do que já era em 1988. Particularmente, adoro esse recurso da intertextualidade que ele usa. Além de aprender muito sobre cinema ao ver seus filmes, foi em um deles que conheci Bette Davis, então, acho que isso basta para dizer o quão sou grato a ele.

Apesar de todas a críticas que a película possa suscitar, ainda estamos falando de Almodóvar. Há problemas em seus filmes, mas suas qualidades e seu estilo conseguem minimizar as falhas. O que também não significa que elas não devam ser apontadas. Neste longa, ele continua com alguns excessos narrativos, mas nada que se sobreponha ao mérito da sua direção, do uso da sinestesia, e de suas intertextualidades. Há, realmente, uma falta de espírito espanhol caloroso explícito como em outras experiências, dessa vez, ele é muito mais simbólico, estilístico e visual, que meramente emotivo e apaixonado. Mesmo assim, ele é bastante recomendável, além do mais, não aconselharia ninguém a deixar de ver a beleza da Penélope Cruz nas telonas do cinema e a forma como percebemos que por trás da câmera há alguém que gosta bastante dela.

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Los Abrazos Rotos, Espanha - 2009. Dirigido por Pedro Almodóvar. Com: Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo, José Luis Gómez. 127 minutos. Gênero: Drama, Suspense.
Nota: 8.5

domingo, 6 de dezembro de 2009

Julie & Julia (2009)

É bom estar de volta ao chá de poejo, e melhor ainda, é retornar comentando um filme estrelado pela Meryl Streep.

Foto 1 - Meryl Streep como Julia Child

O longa da vez é Julie & Julia (2009), onde Streep interpreta Julia Child, e Amy Adams a Julie Powell. Julia Child, uma ex-secretária de uma entidade governamental norte-americana, muda-se com o marido para Paris. Cansada de não fazer nada, deculpem-me o oxímoro, tenta ocupar seu tempo, mas não sabe com o que. É nessa busca que ela percebe que o que mais gosta de fazer é comer, e então, decide entrar numa escola de culinária. Com um talento sensacional para a atividade, tornou-se um nome reconhecido mundialmente. Julie (Amy Adams) entra na trama em um momento de baixa autoestima profissional, e decide então, fazer algo que de fato, lhe dê prazer. Tal como a Julia Child, a Julie Powell também gosta da arte de cozinhar, e decide fazer um blog, onde ela possa comentar, depois de ter feito os pratos sugeridos no livro Mastering the Art of French Cooking de autoria da Julia.

Sobre as atuações. Não gostei da Amy Adams, muito sem graça, parece até uma criança. É uma interpretação com pouca expressividade, mesmo sendo o seu papel tão importante quanto o de Meryl Streep e havendo enormes possibilidades para enriquecê-lo. Por outro lado, você percebe a delicadeza da Streep, que interpreta uma mulher gigante para a média feminina, e com um sotaque daqueles carregados que ela adora compor. Ela consegue nos divertir, nesse papel de uma comilona que é obcecada por manteiga. Uma das marcas dela é a tranquilidade ao dizer suas falas, nunca há exitação, não se percebe uma busca por palavras, é tudo muito natural. Ela está leve como uma pluma, um colírio para os olhos.

O filme. Com certeza, não é o melhor do ano, nem um dos melhores. Sem a atuação da Meryl Streep seria mais um, dentre tantos outros. É impagável vê-la se divertindo literalmente em cena, fazendo de uma chefe da cozinha francesa aparentemente rude e meio desengonçada por causa do seu tamanho, muito mais agradável e divertida, que a "sem graça" e boazinha Amy Adams. Falando em ser meio desengonçada, é admirável o trabalho corporal (ver link com a verdadeira Julia) da mesma Streep. Ela, filme a filme, vem mostrando que é a atriz mais completa da atualidade. Em última análise, Julie & Julia é um longa para descontrair e relaxar, sem muitas pretensões, entretanto, uma coisa é bem verdadeira, ele re-valoriza o hábito pela boa gastronomia e o prazer em comer tão fora de moda com esses padrões de modelos esqueléticas e que só comem saladas. Eu recomendo assistir, esse é um bom exemplo de película para arejar a mente cansada, por isso, bon appétit!

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Julie & Julia, EUA - 2009. Dirigido por Nora Ephron. Com: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci. 123 minutos. Gênero: Biografia, Comédia.

Nota: 8.0

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um tempo afastado

Estou escrevendo este post para avisar que irei me afastar temporariamente do blog. Ou seja, se cada vez mais as postagens ficarem rarefeitas, não significa que desisti do chá de poejo. Ocorre que nessas duas últimas semanas de novembro, estarei decidindo o que irei fazer nos próximos dois anos da minha vida. Então, todo meu tempo, talento e energia serão destinados para essa difícil tarefa que eu tenho que enfrentar. Em breve, eu volto!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Coco avant Chanel (2009)

O filme, Coco avant Chanel (Coco antes de Chanel - 2009), narra a história de vida de Gabrielle Chanel, que mais tarde viria a se tornar, Coco Chanel. Quando criança, juntamente com a irmã, foi criada em um orfanato e logo cedo descobriu o significado da perda, da ausência dos pais e das dificuldades que alguém sem bens enfrenta para sobreviver. Na juventude, trabalha numa alfaiataria e canta em um cabaré para prover o seu sustento. Em uma das suas apresentações conhece o rico Étienne Balsan, que por ser influente na sociedade parisiense, abre indiretamente portas que a levaria ao sucesso. É contrariando as convenções da sua época que Coco Chanel cria o estilo da mulher contemporânea.
Foto 1 - Audrey Tautou em Coco avant Chanel (2009) em um dos seus modelos preferidos as camisas listradas
Em uma época onde mulheres fúteis, afetadas e muitas vezes submissas era a regra, Coco surge com uma proposta que indicava um modo simples, sóbrio e confortável de se vestir, onde o menos era o mais. Ou seja, elegância, sim, mas sem exageros. Como dito, antes de despontar no mundo da moda, até então, Gabrielle cantava em cabarés, mas ela teve a oportunidade de encontrar as pessoas certas, nas horas certas. Entretanto, seu sucesso não foi alcançado de maneira fácil. Ela precisou escolher entre uma vida estável e medíocre, mas que lhe garantia estabilidade, ou arriscar e despontar no mundo da moda. Não preciso dizer que ela optou pela segunta alternativa. Coco Chanel foi a mais influente estilista francesa, e uma mulher de visão progressista. Até hoje, sua moda dita regra no cenário da moda mundial. Hoje, a Chanel é uma empresa de vestuário especializada em peças de luxo e perfumes refinados. A Chanel tem agradado muitas celebridades desde que foi criada, com suas peças de luxo sendo cobiçadas por estrelas do cinema como: Catherine Deneuve, Nicole Kidman, Audrey Tautou e Marilyn Monroe.

Foto 2 - Audrey Tautou como Coco Chanel em uma das cenas finais da película
O filme, entretanto, melhora com o seu desenvolvimento, da mesma forma que a atuação da Audrey Tautou evolui com o progresso de Coco Chanel. Há uma sintonia fina entre a atriz e a vida da personagem. Tautou constroi um papel com grande riqueza de detalhes, simpatia e competência, deixando claro, que não é uma atriz de papel único. Além da boa atuação da protagonista, vemos na película uma bela fotografia. Destaco as cenas finais, por volta dos 96 min., especialmente, quando se mostra os momentos de criação das roupas com a marca Chanel, e as cenas do desfile. Sem falar da simplicidade e beleza das camisas listradas que era uma de suas características criar. Quando não, utilizava roupas predominantemente de cor preta, pois segundo ela, apenas o preto ressalta o olhar. Não há um momento de revelação instântanea da genialidade de Coco Chanel no longa, pelo contrário, nós somos convidados a junto com a protagonista, passo a passo, ir descobrindo suas influências e características, que estão diretamente ligadas ao dia-a-dia das pessoas comuns. E acredito que ai está a maior qualidade do longa, ou seja, é um filme biográfico que não cai no lugar comum de mostrar o personagem como alguém extraordinário, que só falta ter poderes mágicos. Parece que a Anne Fontaine segue uma das premissas de Coco, o menos é o mais. Coco avant Chanel (2009) está longe de ser um filme arrebatador e empolgante, mas é belo e tem um quê de artesanal, onde cada momento é precisamente construído e essencialmente delicado, suave e belo.

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Coco avant Chanel, França - 2009. Dirigido por Anne Fontaine. Com: Audrey Tautou, Benoît Poelvoorde, Alessandro Nivola, Emmanuelle Devos. 105 min.. Gênero: Biografia e Drama.
Nota: 8.5

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Nova manchete

Foto 1 - Para ampliar a imagem basta clicar nela

Eu tenho uma nova manchete, uma nova interpretação sobre o jogo, para os amigos da globo.com. O Sport é rebaixado, mas atrapalha o Palmeiras. Não foi isso que aconteceu? Que tal ser mais imparcial? O Palmeiras volta a ser líder... hahaha, ele ou o árbitro? Kfouri, às vezes, é sensato, "O saldo de gols que devolve a liderança episódica ao Verdão parece insuficiente para tranquilizar a massa alviverde."

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Bette Davis on my mind

Olha que homenagem bacana, para a Bette Davis, com vários momento da sua carreira eu achei:

sábado, 7 de novembro de 2009

O outro lado de Hollywood (1995)

Por esse dias estreou nos cinemas brasileiros o filme, Caçadores de Vampiras Lésbicas (2009), não o vi, mas o título do longa fez-me lembrar o argumento de um documentário que tinha assistido. O documentário que estou falando é o The Celluloid Closet (O outro lado de Hollywood - 1995), dirigido e escrito por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, a seguir faço uma breve descrição dele, selecionando algumas películas mostradas.
Ele começa da seguinte forma:
Hollywood, esse fenomenal fabricante de mitos, ensinou aos heterosexuais o que pensar dos gays e os gays o que pensar de si mesmos.
Essa frase acima tem uma análise bastante coerente, pois nossas idéias a respeito de quem somos não se originam só em nosso interior, vem da cultura, por exemplo, dos filmes. Deles podemos aprender o que significa ser um homem ou uma mulher, o que representa ter sexualidade. Segundo Zizek, segue o link para o comentário que fiz sobre o Guia do Pervertido do Cinema, o cinema é assim a arte pervertida por excelência. Ele não te dá aquilo que deseja, mas sim te diz como desejar. Ele ensina que um homem vestido de mulher é sinônimo de chacota, gozação, já uma mulher vestida de homem, na maioria das vezes é sexy, conseguindo atingir homens e mulheres ao mesmo tempo. Temos dois exemplos clássicos para estes casos. Marlene Dietrich em Marrocos (1930) e Greta Garbo, como a Rainha Christina, em 1933. Garbo nesse filme interpretava uma monarca sueca, verdadeiramente masculinizada. Hollywood trocou a história, mas parece ter ficado vestígios da trama original.

Foto 1 - Marlene Dietrich interpretando a cantora de boate Amy Jolly em Marrocos (1930)

Foto 2 - Garbo em trajes masculinos em Rainha Christina (1933)

Nessa mesma época, a censura partiu de todos os lados. Do clube das mulheres, de um político chamado Will Hays, e principalmente, da Igreja Católica em 1934. Essas organizações não só censuravam as películas, como também, promoviam boicotes. O lema da legião da decência era: Acceptable / Moraly Objectionable/ Condemned. Neste período, não só haviam atitudes contra, como leis que reprimiam o homosexualismo.

Entretanto, os filmes com temáticas homoeróticas continuaram a ser produzidos de maneira sutil e inteligente conseguindo, assim, transpor a censura. Os diretores escondiam mais os personagens desse tipo, mas eles continuavam presentes de forma indireta. E é incrível como se você para e pensa um pouco, tudo isso faz sentido. Veja a lista de clássicos que possuem a temática de maneira "subjacente":

1.
Foto 3 - Rebecca (1940) é um filme clássico do Hitchcock vencedor do Oscar de melhor filme
2.
Foto 4 - O Falcão Maltês (1941), um clássico do cinema norte-americano com Humphrey Bogart
3.
Foto 5 - Festim Diabólico (1948), também do diretor Hitchcock, narra a história de dois psicopatas que ao mesmo tempo são amantes.
4.
Foto 6 - A "movie star" Joan Crawford em um papel tipicamente masculino no filme Johnny Guitar (1954)

5.
Foto 7 - Paul Newman e Elizabeth Taylor em, Gata em Teto de Zinco Quente (1958), mesmo tendo o conteúdo mais explícito ao homosexualismo sido censurado, ainda ficam resquícios que nos levam a pensar nisso

6.
Foto 8 - Outro clássico do cinema, Ben-Hur (1959), a cena acima foi protagonizada por Charlton Heston (Ben-Hur) e Stephen Boyd (Messala), amigos desde a infância vêem no reencontro a possibilidade de reatar antigos laços

7.
Foto 9 - Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor em cena do filme, De repente, no último verão (1959)

Sobre o filme estrelado por Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor a crítica que receberam do The New York Time foi: "Filme de degenerados, trabalho de degenerados."Sobre o filme, ainda saiu um comentário de Bosley Crowther, um respeitado crítico da época, "Se gostar do incesto, da violação, da sodomia, do canibalismo, da degeneração, isto é um filme para você, este filme é repugnante."

8.
Foto 10 - Um grande filme do Kubrick, Spartacus (1960) traz Kirk Douglas no elenco e mostra as relações entre homens no antigo Império Romano

Após muito tempo no "armário", o tema é tocado explicitamente em The Children's Hour (1961).

Foto 11 - Shirley MacLaine e Audrey Hepburn no referido filme

Entretanto, ensinou que a ação das duas envolvidas Karen e Martha, respectivamente, Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, deveria ser de culpa, aversão, doença, morte, que cometeu algo que deve ser pago, que se deve sofrer. E foi por isso que me lembrei desse documentário quando vi o título do filme das "vampiras". Porque o preço que deve ser pago, segundo ensina os filmes hollywoodianos da época, é o fim da vida, em todos os filmes, o personagem gay é morto. Isso é apenas invertido em 1972, no filme, Cabaret, que mostra o triângulo amoroso entre uma cantora de cabaré, um professor e um barão alemão.

O filme Cruising (1980) estrelado por Al Pacino é exemplo ainda que todos os gays devem ser mortos. A morte aos gays, as gozações, nele fica evidente que o termo gay virou algo normal, todo mundo usa, e nem o nota mais. Outros exemplos de importantes filmes que tem esse tipo de temática são:

9.
Foto 12 - Estrelado por Meryl Streep e Cher, Silkwood (1983)

10.
Foto 13 - Fome de viver é um filme de 1983, e na cena acima estão Catherine Deneuve e Susan Sarandon

11.

Foto 14 - A cor púrpura (1985) mostra o amor pueril entre duas mulheres, uma delas Celie (Whoopi Goldberg)

12.
Foto 15 - Cena do filme Thelma e Louise (1991), um clássico dos anos de 1990, com grandes atuações de Susan Sarandon e Geena Davis

13.

Foto 16 - Cartaz do filme Filadélfia (1993), com Tom Hanks e Denzel Washington. Não é um filme escândaloso ou o gay não é um tipo exótico, nem assassino, nem promíscuo, apenas tenta lutar por igualdade na sociedade que vive.

Abaixo, o trailer do documentário:

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Boas cenas, belas músicas

Foto 1 - Bette Davis como Baby Jane Hudson
Eu não canso de repetir, Bette Davis foi, e ainda é, o maior nome do cinema mundial. Além do meu fanatismo por ela, o que me impede de ser isento, suas perfomances falam por si próprias. E um dos vários exemplos do seu domínio sobre o interpretar e o se expressar está presente no longa What ever happened to Baby Jane? (1962). O primeiro vídeo, logo abaixo, serve apenas para apresentar a Baby Jane para vocês.

De uma figura grotesca, Miss Davis criou uma personagem tocante e convincente. As cenas foram excepcionalmente interpretadas e dirigidas. O filme sustentou um clima de pesadelo cru, sem sentimentalismos, que se adequava perfeitamente a atmosfera de Hollywood. Em um ambiente onde a competição, a inveja, o ciúme e o ressentimento eram reais, moram duas irmãs que há muito viveram no mundo do show business. Baby Jane Hudson (Bette Davis) é a irmã que vive da esperança de ser lembrada pelos fãs, tendo há muito deixado de ser uma super star. Enquanto isso, Blanche Hudson (Joan Crawford) que sofrera um acidente que a deixou paraplégica ainda é reconhecida como uma grande atriz de cinema. Tudo isso vai tornando cada vez mais o convívio entre elas bastante complicado, ao ponto de Baby Jane perder o senso do real, e passar a se comportar como uma boneca (remetendo as bonecas Baby Jane que eram vendidas quando a atriz ainda fazia sucesso). Dá para perceber que a gênese dos problemas psicológicos de Jane são causados porque todas as suas referências positivas estão no passado, quando era criança, e fazia sucesso. Entretanto, o resultado da velhice e do anonimato é esse que pode ser visto logo a seguir (abaixo pode ser visto o vídeo homenageado nesta postagem). Com uma excelente interpretação, veja como uma grande estrela (Bette Davis) se comporta diante das câmeras, e com uma boa música vos apresento Baby Jane Hudson cantando I'VE WRITTEN A LETTER TO DADDY. Por isso, essa é a nossa sétima, Boas cenas, belas músicas.

domingo, 1 de novembro de 2009

Distrito 9 (2009)

Foto 1 - Wikus (o primeiro da esquerda) no distrito 9 desalojando a população alienígena

O protagonista, Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) é funcionário da MNU - Multi-Nacional United, empresa privada que cuida do acampamento alienígena. Vale salientar, que esta multinacional está mais interessada no comércio de armas detidas do que nos direitos dos aliens. Durante vinte anos, desde sua chegada, os alienígenas estiveram em um espaço separados dos humanos, sem expectativa de voltar para seu planeta. Inclusive, os governantes viam a presença deles como fonte de gerar dinheiro. Pois buscavam lucrar com a venda do arsenal bélico capturado e queriam conhecer a tecnologia desse grupo. Por outro lado, a população comum queria que eles fossem cada vez mais segregados, ou que fossem, uma vez por todas embora. No acampamento chamado Distrito 9, onde eles viviam, se formou um mercado negro comandado pelos nigerianos. Antes de ver o longa, dei uma olhada no trailer, e inicialmente, pensei que se tratasse da questão do apartheid na África do Sul, claro que isso mudou no momento que vi aquela nave gigantesca no meio da cidade de Joanesburgo. Era apartheid, mas em outra perspectiva.

O filme aponta questões de conflito e de tensões relevantes. Quando visto em situação de competição com indivíduos estrangeiros, que não carregam verossimilhanças culturais, grupos tendem a se comportar de forma negativa e hostil. Hoje, um problema relevante tratado por aqueles que estudam migrações internacionais refere-se a essa animosidade, ou melhor, ao fenômeno do xenofobismo. Os extraterrestres foram alocados em um espaço logo abaixo da sua nave, pouco tempo depois, o ambiente tinha se transformado numa favela, com condições deploráveis, além disso, as pessoas comuns pouca informação tinha sobre o local e sobre o que acontecia alí. Sabe o que isso me lembra? A revolta dos jovens nos subúrbios da França em 2005. Eles viviam à margem desta sociedade sofrendo com o racismo, o desemprego e os baixos níveis de desenvolvimento social. Claro que estes indivíduos não eram europeus, muito menos franceses, eram "extraterrestres", que vieram da África, principalmente, das ex-colônias francesas.

Nada melhor do que falar de segregação estando na África do Sul. O filme nos dá algumas lições sobre o tema. Em uma das falas, já que no início o longa se passa como se fosse um documentário, uma mulher diz: "Pelo menos nos mantem separados deles." A abordagem trazida por Distrito 9 é uma nova forma para se falar em discriminação e preconceito. Quando se vê ameaçado, a primeira coisa feita pelos humanos, é tentar se distinguir de alguma forma dos membros do outro grupo. A separação entre o grupo humano e extraterrestre, ou branco e negro, civilizado e bárbaro, todas dicotomias são variações da manifestação da discriminação, ou seja, por pertencer a um grupo diferente do meu, eu dou um tratamento injusto ao outro. Dessa forma, todos os recuros considerados valiosos naquela sociedade são repartidos de forma desproporcional e iniqua. Decorrente desse relacionamento desigual, surge o preconceito, que é a atitude de se julgar uma pessoa com base nas características reais ou imaginárias de seu grupo, que no filme, tais características estão de fato marcadas corporalmente.

Foto 2 - Wikus transformando-se em alienígena

Além disso, parecemos ver aquilo que Thomas Hobbes disse no século XVII, o homem é lobo do próprio homem (Homo homini lupus), ou, há uma guerra de todos contra todos (Bellum omnia omnes). No filme, o homem parece estar no seu mais profundo estado de natureza. Sem nenhuma forma de controle ou coerção, todos buscam otimizar suas vontades. Por um lado, a MNU tenta a todo custo capturar o Wikus Van De Merwe para que ele possa operar o armamento que só é ativado com o DNA alienígena; o Wikus sem pensar em mais nada, tenta reverter a efetividade da mutação que toma conta dele, e que o fez ser caçado por todos os lados e negado pela própria esposa; já Christoper é o alien que tenta ajudar Wikus, entretanto, pensa primeiro nos seus pares.

Wikus como dito inicialmente, antes de ter sido infectado pelo vírus extraterrestre trabalhava para a MNU, e no dia da infecção estava desalojando os alienígenas de um acampamento para mandá-los para um outro, bem pior. Além disso, seguia-se os maltratos, as humilhações, os assassinatos e a morte dos filhotes ainda em estágio de ovos dos aliens. Ao passar para o grupo em desvantagem de poder, passa a perceber, de fato, como viviam e como na verdade, só queriam voltar para o seu planeta.
Nesse momento, após tantas atrocidades, você já está totalmente envergonhado de pertencer ao grupo dos seres humanos. Pior ainda, sabendo que aquilo é ficção, mas poderia muito bem ser real.

Acredito que o longa possui algumas falhas. Quero destacar o despreparo dos agentes frente as situações adversas. A infecção do Wikus foi algo primário, todo mundo sabe que não se deve manusear artefato inimigo ou estranho com as mãos desprotegidas, muito menos, levar ao rosto para cheirar. Outra coisa, as pessoas são extremamente ingênuas, na festa só não via que o cara estava passando mal quem não queria. Além disso, todo mundo já tinha percebido que o protagonista não iria morrer, inclusive, isso quase nunca acontece. O diretor deveria ter achado soluções mais criativas para essas cenas, ou então, sabendo que ele não iria morrer, não criar essas expectativas baratas.

Por fim, apesar das críticas recebidas pelo filme, na Nigéria, em particular, por tratá-los como criminosos, atrasados, feiticeiros e canibais, Distrito 9 cria uma alegoria criativa para se entender o problema das migrações modernas, da segregação, da manipulação de informações e da ausência de coerção imparcial. Não é um filme descartável, mas também, é menos empolgante comparado ao que se fala dele. Aconselho vê-lo, mas dá para esperar ele ser lançado em DVD, recomendo que você não vá ao cinema por conta dele. Resumindo, temática ótima, mas cinematograficamente, elementar. Ahh, e ainda é daqueles filmes que teimam em ter continuação, uma versão só era suficiente...

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District 9, Estados Unidos/Nova Zelândia – 2009. Dirigido por: Neill Blomkamp. Com: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvaine Strike, John Summer, William Allen Young. 112 min. Gênero: Ação e Ficção Científica.
Nota: 8.0

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Restauração digital de From Here to Eternity (1953)

Você já deve ter visto essa cena clássica em algum lugar por ai. O filme é From Here to Eternity (1953) - A um passo da eternidade - e é ambientado em um campo militar norte-americano no Havaí em momentos antes do ataque a Pearl Harbor. O longa mostra o cotidiano do recruta Prewitt (Montgomery Clift) que é obrigado a lutar boxe pela sua companhia do exército, mesmo contra a sua vontade. Só que Prewitt não luta mais, e acaba sofrendo sanção dos outros soldados por conta disso. Quem tenta ajudá-lo é o sargento Warden (Burt Lancaster), só que este também já tem problemas suficientes ao se envolver com a mulher de seu superior, a linda Karen Holmes (Deborah Kerr), inclusive, são os dois que estão na foto do início do texto, e a cena pode ser vista logo abaixo. Mas, todo esse clima de animosidade e romance é alterado logo após o ataque a Pearl Harbor pelos japoneses.


Falando sobre a nova edição, o filme vem com uma recriação do ataque a Pearl Harbor combinado a uma sequência de documentário. Esta versão digital da Sony Pictures foi feita apenas a partir dos elementos originais ainda existentes apresentando um som original restaurado digitalmente. A película foi vencedora de oito Prêmios da Academia, incluindo, melhor filme e melhor direção (Fred Zinnemann). Além disso, o longa apresenta nada menos do que cinco nomeações para melhor performance, vencendo nas categorias de melhor atriz e ator coadjuvante (Frank Sinatra).

Para quem estiver em Beverly Hills, a exibição do longa será no dia 18 de novembro, às 19:30 hs, no Samuel Goldwyn Theater.

Para mais informações e para acessar a fonte, clique aqui.

Kramer versus Kramer (1979)

Kramer vs. Kramer (1979) é um filme essencial para todos aqueles que já passaram por momentos de separação dos pais. O filme retrata as mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas, especificamente, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, e os seus anseios de paridade com os homens. Contudo, ainda hoje, haverá quem pense que Joanna Kramer (Meryl Streep) é uma desnaturada por fazer o que fez, mas, em minha opinião, ela fez o que é comum muitos homens fazerem, e que por sua vez, é visto como normal. No entanto, isso ainda não é justificativa para seu ato.
Foto 1 - Joanna Kramer (Meryl Streep) e Billy em um momento de alegria no parque. Vale salientar que o longa possui belos momentos e uma belíssima fotografia.

Joanna tem sérias razões para dar cabo aos seus pensamentos. Em um relacionamento de 8 (oito) anos, vive em um ambiente onde o diálogo não é nem fundamental, nem levado a sério, e onde toda a família vive em pró de um único membro, Ted Kramer (Dustin Hoffman). Hoje em dia, o filme pode até parecer banal, visto que a sua problemática é mais aceita socialmente. Porém, nos final dos anos 70, o assunto ainda era visto como tabu, e daí talvez, advenha sua enorme repercussão no meio cinematográfico. A busca de Joanna Kramer girava em torno do seu desejo pela independência financeira e contra sua falta de vida social. Uma passagem, que pode ser lida logo a seguir, evidencia seu descontentamento com a vida que levava, e que era, e ainda é, similar a realidade de muitas mulheres.

Toda a minha vida me senti mulher de alguém ou mãe de alguém ou filha de alguém. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, nunca soube quem eu era.

Joanna Kramer
Mas muitos não aceitam o fato dele ter tido uma grande repercussão (no Oscar de 1980, ele concorreu diretamente com o filme Apocalypse Now do Francis Ford Coppola). Kramer vs. Kramer foi premiando com 5 (cinco) oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep) e Melhor Roteiro Adaptado) e 4 (quatro) globos de ouro (Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (Dustin Hoffman) e Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep).

Foto 2 - Billy e Ted Kramer (Dustin Hoffman) fazendo rabanadas para o café da manhã. No longa, Ted luta desesperadamente atrás do tempo perdido, tentando se tornar um pai mais presente na vida do filho. Quem já viu o filme sabe do significado dessa cena.

Deixando todas as controvérsias (que na minha opinião não existem), não tenha dúvida que você verá um ótimo filme e um show de interpretação, principalmente nas cenas finais, do Dustin Hoffman, da sensacional Meryl Streep e um show a parte do pequeno Billy Kramer (Justin Henry). Segurem as lágrimas na cena do tribunal, onde tanto Hoffman, quanto Streep estão incríveis. Se me perguntassem o que é o filme em um frase, eu diria que ele mostra que nem tudo na vida é explicado, ou pode ser dito, de maneira dicotômica. Às vezes, um não, ou um sim, não são suficientes para expressar pensamentos ou responder perguntas.

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Kramer vs. Kramer, Estados Unidos - 1979. Dirigido por: Robert Benton. Com: Dustin Hoffman, Meryl Streep, Jane Alexander. 105 minutos. Gênero: Drama.
Nota: 9.0

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Boas cenas, belas músicas

Foto 1 - Cena do ataque com os helicópteros onde a trilha sonora é A Cavalgada das Valquírias

Chegou a vez de homenagear, nesta série do blog, um grande clássico do cinema. Aqui, a união do elemento musical e da composição visual fazem dessa cena uma das mais belas e inesquecíveis em se tratando de filmes de guerra. O filme em questão é Apocalypse Now (1979) do produtor de cinema Francis Ford Coppola. A película ambienta-se na Guerra do Vietnã e trata basicamente das vicissitudes do conflito. Ou seja, o que dizer ou fazer quando assassinos acusam assassinos? Este ao meu ver é o pricipal dilema apresentado pela trama. Nesse longa, de forma brilhante, o diretor consegue transitar cinematograficamente de situações de extrema calmaria para momentos de extremo caos. "É um ópera para os olhos". E falando em ópera, chegamos ao ponto que queremos. Na cena que pode ser vista logo abaixo, Coppola usa como trilha a Cavalgada das Valquírias de autoria do alemão Richard Wagner. O alinhamento dos helicópteros, o avançar milimetricamente relacionado com o mover das ondas, o ataque. Tudo isso está em perfeita harmonia com a composição que a música requer sendo ao mesmo tempo, fúria e leveza. E é por tudo isso que essa é a nossa sexta Boas cenas, belas músicas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

U 2ube, uma parceria histórica

Foto 1 - Expectativa poucos minutos antes do show no site do youtube. Clique na imagem para ampliá-la.

Há pouco mais de uma hora acabou em Los Angeles mais um show da banda irlandesa U2 da turnê 360º, comentada neste blog. Só que dessa vez, a perfomance do quarteto pode ser vista ao vivo pelo buscador de vídeos mais popular do mundo, o youtube. Com músicas do novo trabalho, e claro, suas clássicas, Bono e seus fiéis escudeiros emocionaram o público presente no estádio, e os que acompanhavam via internet.

Foto 2 - Anúncio do show na página do U2 no youtube

Antes do início da apresentação, enquanto o grupo se encaminhava ao palco, ouvíamos ao fundo, a canção Space Oddity, uma clássica do David Bowie. Mas às 01:05, na madrugada do Recife, Larry Mullen Jr., o baterista do U2, entrava no palco e iniciava o show, empolgando o público com a primeira música da noite, Breathe que pertence ao mais recente álbum, No line on the horizon. Depois dessa, ouvimos Get on your boots, que tal como a terceira da noite - o hit Magnificent, também pertence ao novo trabalho deles. Nesse ínterim, Bono saúda algumas cidades do mundo e diz: 'What time is it in the world and where are we going?' Ele estava se referindo ao fato de que naquela noite a turne 360º do U2 estar atravessando as fronteiras de vários países em todos os continentes simultaneamente, alcançando milhares de pessoas ao redor do planeta.

Posteriormente, com novos arranjos vemos a perfomance de duas canções que levam a plateia ao delírio. Estamos falando de Mysterious Ways e Beautiful Day. O show estava apenas começando e eu já pensava: A única coisa ruim é que não posso sentir a vibe do Rose Bowl Stadium, mas a transmissão estava melhor do que ver o show da área VIP. Depois disso, a sexta canção - I still haven't found what I'm looking for - nela, o público canta com Bono, e é de arrepiar. Porém, mais emoções estavam para chegar, em seguida, ouvimos um cover da clássica Stand by me, se me permitem, o momento foi do caralho!

Depois, ouvimos Stuck in a moment, presente no trabalho da banda de 2000, apenas com o violão do The Edge. A oitava música é a que leva o nome do álbum - No line on the horizon -, depois dela ouvimos a empolgante Elevation, seguida de In a litte while que teve participação de um astronauta em órbita. A décima primeira canção foi Unknown caller do novo cd do U2. Enquanto isso, a participação dos telespectadores era intensa. O youtube em associação com o Twitter atualizava as postagens dos cadastrados que estavam vendo e comentando a apresentação. Os comentários não paravam de chegar, inclusive, com grande presença brasileira.

A décima segunda canção foi - Until the end of the world - e com ela, o show completava uma hora. E o que falar? Até o momento estava tudo perfeito, tanto a transmissão extraordinária do youtube, quanto a apresentação excitante e incrível dos irlandeses. Depois foi a vez de Unforgettable fire, que poderia muito bem ser utilizado para descrever a apresentação, Unforgettable show. O U2 mostrava mais uma vez porque é uma das maiores, se não a maior, banda em atividade do planeta.

Foto 3 - Imagem de divulgação na página do U2 na internet

Ainda ouviríamos, City of blinding lights, Vertigo e a saudação de Bono ao mexicanos, com um "Vamos muchachos, are you ready?" Em seguida seria a vez de novos e antigos sucessos, como, I'll go crazy - remix, Sunday Bloody Sunday, MLK, Walk on e One. Neste momento, eu já sabia que o U2 seria notícia nos jornais de todo o mundo nesta segunda por conta da apresentação histórica que estava fazendo.

Mais ainda não estávamos no fim, o grupo ainda tinha preparado mais quatro músicas. A incrível, Where the streets have no name, Ultraviolet, With or without you e a Moment of surrender. Moment of surrender foi a última canção, mas como o título sugere, o público já havia se entregue e chegado ao êxtase há bastante tempo. Nesse momento, era a plateia que iluminava o estádio com os seus celulares tornando a festa mais bela. Este foi o fim de mais um grande show desse quarteto com mais de 30 anos de estrada. Foi um grande e inesquecível concerto, com um pouco mais de duas horas de duração. Tudo isso que descrevi só foi possível graças a internet, e a vontade dos produtores do show do U2 e do youtube. Será essa uma possibilidade para os shows do futuro?

domingo, 25 de outubro de 2009

O escafandro e a borboleta (2007)

Logo na cena inicial do filme, nós percebemos que ele é dirigido para o telespectador. Por que digo isso? Quem você acha que a enfermeira avisa estar saindo de um sono profundo? O paciente (Jean-Dominique Bauby) ou nós mesmos? Para mim, o recado é para nós. "Mantenha os olhos abertos, abra bem os olhos!" Você tem dúvida de quem é o paciente?

Foto 1 - O Grito (1893) de Edvard Munch e um escafandro

A prisão do personagem, para ele mesmo, é o escafandro. Essa é uma analogia com a angústia moderna de muitas vezes se sentir incapaz de amar, de se expressar ou de conviver. Em O Grito, quadro do pintor norueguês Edvard Munch, percebemos o mesmo sentimento de claustrofobia do filme comentado aqui. Como reverter essa situação? A resposta dada pelo longa é que devemos recorrer a nossa humanidade, combinar nossa memória a nossa imaginação.

Em muitos momentos há uma identificação do que acontece com o ator principal e nossas vidas. Coisa do tipo, acorde, e vá viver! Sentimento do que poderia ter sido, mas que não foi. Algum momento que poderia mudar toda uma vida, mas que a exitação ou o medo do desconhecido acabou com a possibilidade. Isso fica bem evidente em uma das falas transcritas abaixo:
Hoje percebo que toda a minha existência é uma cadeia de pequenos erros. Mulheres que não fui capaz de amar, chances que não pude aproveitar, momentos de felicidade que deixei escapar. Uma carreira cujo resultado me era conhecido de antemão, mas que na qual fui incapaz de apostar e ser um vencedor. Estava cego ou surdo? Ou precisava de uma desgraça para ver meu verdadeiro ser?
A intenção deste post não é contar a história da película, mas apreender aquilo que ela possui de geral. As pessoas tem que aprender a se desprender de casos particulares, tanto no cotidiano, quanto na leitura de filmes. Exemplos às vezes são importantíssimos, mas não são suficientes para se compreender o nível macro de análise. Nesse sentido, para além do fato do Jean-Dominique Bauby, interpretado por Mathieu Amalric ter sofrido um acidente vascular cerebral que o deixou totalmente paralisado com exceção do seu olho esquerdo, há a beleza da superação de alguém que se comunica de uma forma lenta, silenciosa e bastante trabalhosa.

Já li por ai que a película torna-se lenta e desinteressante, na minha visão, essa é uma análise descuidada. Mesmo com um protagonista inerte por questões físicas e um repetição incrível do alfabeto, as técnicas cinematográficas utilizadas pelo diretor fazem o longa torna-se cada vez mais interessante. Por exemplo, o fechar e abrir do diafragma da câmera que proporciona a impressão da abertura e fechamento do olho esquerdo do "Jean-Do". Além disso, todas as intervenções do diretor para explicar acontecimentos do passado e as voz interna do protagonista, que fecha muitas vezes o raciocínio dos diálogos, são trabalhadas de maneira ágil e perspicaz por mais antagônico que isso possa parecer. Sutileza, é a palavra de ordem do longa, daí sua analogia com a borboleta. Assim, O Escafandro e a Borboleta (2007) é uma leitura sobre aprisionamento e liberdade, humanidade e imaginação. É um filme que ensina como se adaptar a um ambiente adverso, não sem tocar nas incertezas e frustrações que isso gera. Mostra que viver significa mais que um corpo em movimento, é imaginação, sonhos e ambições.

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P.S.: U2 nesta madrugada do domingo para a segunda no youtube. Mais informações sobre o show que será transmitido, clique aqui. Vídeo promocional da transmissão do show logo abaixo:

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios (2009), a História do Cinema sendo escrita

Foto 1 - Tarantino e parte do elenco de Bastardos Inglórios (2009)

Hoje, eu vi a minha segunda boa surpresa do ano no campo do Cinema. Sem dúvida, a mais recente obra do Tarantino é um dos melhores filmes lançados em 2009. Uma coisa: Quem se importa se a trama segue ou não os manuais de História? Particularmente, não faço a mínima questão, se estivesse a fim de "veracidade" pegaria o velho livro do Eric Hobsbawm para ler. Entretanto, fui ao cinema sabendo que entraria mais uma vez em um mundo particular, onde figuram, Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Kill Bill, dentre outros.

Saí do cinema pensando como foi em 1950 o lançamento do filme All About Eve e como era o Recife daquela época. Ou como reagiu o público ao ver A Clockwork Orange em 1971, Taxi Driver em 1976, ou Apocalipse Now em 1979, apenas para citar alguns expoentes da sétima arte. Após essa viagem, volto, e observo o trânsito da cidade às 20 horas da noite. E concluo, que apesar de tudo, prefiro viver nos dias atuais. Entretanto, a inquietação permanece, como as pessoas reagiram a atuação de Bette Davis em uma de suas melhores apresentações? Qual a reação dos espectadores diante do comportamento desviante da gang de Kubrick? Ou ainda, teria sido na estreia inesquecíveis a atuação de Robert De Niro, a trilha sonora de Bernard Herrmann e a direção de Scorsese? Como reagiu a crítica ao épico de Coppola e sua trilha sonora de primeira grandeza? Provavelmente nunca saberei, mas hoje, acredito ter visto o surgimento de um novo clássico da sétima arte à moda de Quentin Tarantino, é claro!

Diálogos inteligentes e atuações marcantes são os pontos fortes do longa. Cinismo, medo e vingança são as palavras-chave das interpretações, destaco, o Brad Pitt como o Tenente Aldo Raine e o Christoph Waltz como o Coronel Hans Landa, que sendo sincero, eu não conhecia. Mesmo sendo um filme onde a violência está presente e a morte é recorrente, ele nos faz sorrir. É isso mesmo, o grotesco ou as distorções que se distanciam da normalidade estão sempre suscetíveis ao cômico. O longa contém um humor negro e refinado que soa mais à ironia que ao deboche. Hitler e seus fantoches do primeiro escalão, como Joseph Goebbels, são tratados como pessoas mimadas e afetadas. A película de fato tem o propósito de por o dedo na ferida (quem viu Bastardos Inglórios sabe do que estou falando), sem falar da cena final, o ápice. Onde realmente é mostrado quem são os verdadeiros ratos correndo contra a morte em um porão.

Considero até o momento o melhor filme da temporada, inclusive, com as melhores atuações, tanto melhor ator (Brad Pitt), como melhor ator coadjuvante (Christoph Waltz), principalmente. Sem falar na originalidade do roteiro, teremos boas notícias no Oscar 2010, eu espero. Tarantino fez algo irretocável, onde o espectador consegue absorver o enredo, e não acha estranha as paradas para explicar a vida pregressa de determinados personagens, ou as setas que indicam alguém que merece ser destacado. O argumento é desenvolvido brilhantemente e mesmo o aparecimento repentino de novos personagens na trama não o tornam desfocado ou cansativo, seus pontos fortes são a coerência artística, a coesão narrativa e a beleza estética. As peças do seu quebra-cabeça se encaixam perfeitamente no que se refere à lógica cinematográfica.

De fato, é um diretor e roteirista mais consciente das ferramentas cinematográficas que possui. Não é novidade para ninguém a forma como ele costuma dividir suas películas, ou as interrupções que faz para explicar coisas, ou ainda, o tom sarcástico dos seus diálogos e o surgimento de personagens "quase que do nada", entretanto, tudo isso imprime sua marca no filme, mas tudo é feito com sutileza e sem excessos. Não há violência gratuita, nem diálogo impensado, sabemos que por trás disso há alguém mais experiente e maduro. Tudo isso significa que por mais paradoxal que possa ser, o longa do Tarantino, ao mesmo tempo que subverte a História ao seu bel-prazer em Bastardos Inglórios, faz História nas páginas douradas da sétima arte.