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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Nine (2009)

Nine narra a história de Guido Contini (Daniel Day-Lewis), um cineasta em busca de inspiração e em crise criativa. Uma clara referência ao filme 8 1/2 de Fellini, onde um outro Guido, só que Anselmi, não consegue ter novas ideias para sua nova película, e vê nesse processo, uma luta íntima consigo mesmo. Seus traumas, seu passado, questões mal resolvidas, as mulheres que fizeram parte da sua vida, tudo vem à tona, e o tormento é devastador. Resumindo, em ambos os casos, a crise de consciência está presente, como também, a iminente falta de originalidade. O que há de diferente entre os longas citados, é que o dirigido pelo Rob Marshall, nem de longe se assemelha a genialidade com que é conduzido o filmado por Fellini, mesmo um sendo baseado no outro.

Sabe quando se tem a impressão de que um constelação de artistas foram reunidas, mas faltou a mão firme ou um maetro que os conduzissem? Pois bem, foi essa a leitura que eu tive. Quem leu meu comentário sobre Sangue Negro, por exemplo, sabe o quanto eu respeito e admiro o Daniel Day-Lewis, mas em Nine, ele está caricato até o último instante, e isso, quando ele consegue impressionar. Sem falar na Judi Dench (Lili), uma excelente atriz que tem uma participação diminuta, e uma cena musical terrível. É terrível tanto a execução da cena, quanto a canção que ela interpreta. Aliás, falando em canção, para um musical, foi feita uma péssima seleção de composições, com duas exceções que falo a seguir.

Os momentos que chamam um pouco a atenção são quando se canta Be Italian e Cinema Italiano. A primeira interpretada de forma bem sensual pela Stacy Ferguson (Saraghina), e a segunda, pela Kate Hudson (Stephanie Necrophuros). Entretanto, boas interpretações só vejo duas. A primeira, e indiscutível, é a da Marion Cotillard (Luisa Contini), ela está emotiva, simples e convincente no papel da "boa esposa" que depois dá um chute na bunda do marido. É incrível como seus olhos dizem tudo o que precisamos saber sobre suas emoções. E a segunda, é a Penélope Cruz (Carla Albanese) que é uma amante sensual e possessiva. Vale uma indicação ao Oscar, mas não vale vencer, entretanto, preferiria ver a Cotillard indicada.

Ahh, sobre a Sophia Loren e a Nicole Kidman prefiro não comentar. A primeira por respeito aos serviços já prestados à sétima arte, e a segunda, porque seu papel é tão morno que não incita nenhum tipo de sentimento. Antes de ver Nine me perguntava sobre a razão do seu fracasso. Não entendia como um filme desses tinha sido fadado ao esquecimento nas premiações, e parece que a resposta é Rob Marshall. Não há paixão no filme ou pelo filme, é uma sucessão de acontecimentos desconectados e piorados pelas músicas. A sensação que se tem é que estamos na platéia do teatro, e não no cinema. Marshall, volta para a Broadway!

Nine é a prova de que uma boa direção é essencial.
Desde que vi uma entrevista com a grande Bette Davis, percebi o quão uma boa direção pode interferir no trabalho das atrizes e atores. Na oportunidade, ela dizia que até seu trabalho com William Wyler em 1938, não tinha sido dirigida por ninguém, e definia a sua situação assim: “Roteiros ruins, diretores ruins". No entanto, depois de trabalhar com Wyler, ela chegou a dizer que sem ele, a sua carreira não teria sido tão fantástica. E isso vindo de Bette Davis importa muito, ela não era chegada a elogiar quem não merecesse. Assim, pode-se ter uma constelação de atores, mas sem uma boa direção, não há roteiro que se sustente, e esse, é o caso de Nine. E agora eu sei, o filme e a direção são ruins mesmo!
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Nine, Estados Unidos - 2009. Dirigido por Rob Marshall. Com: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Stacy Ferguson, Kate Hudson, Sophia Loren. 112 minutos. Gênero: Drama, Musical.
Nota: 3.0

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sangue Negro (2007)

"I drink your milkshake!"

Clichê, antiquado, mais do mesmo? Será que essas são palavras e expressões adequadas para definir o filme dirigido pelo Paul Thomas Anderson? Afinal de contas, insanidade e ganância são temas para lá de batidos no cinema, principalmente, o norte-americano. No momento, lembro de dois clássicos que retratam bem essas questões, a saber, Cidadão Kane de 1941 e Assim Caminha a Humanidade de 1956. Sendo que a semelhança deste último é maior ainda, visto que a sua trama também se passa no oeste americano e também em torno do petróleo.

No entanto, uma coisa me chama atenção no longa Sangue Negro (2007). Normalmente, uma coisa que me deixa ligado nos filmes são as atuações femininas, coisa que não é possível nessa película em específico. Não estou aqui para falar do enredo do filme, que de fato não é original, original é a sua direção e a atuação do Daniel Day-Lewis. Sigo esse ator há algum tempo, para ser preciso, desde do longa A insustentável leveza do ser de 1988, mesmo ele já tendo atuado muito antes de 88. Assim, não é surpresa nenhuma para mim sua perfomance dessa vez como Daniel Plainview. E é sobre isso que quero discutir.

Acho que desde o Hannibal do Anthony Hopkins que eu não via um ator refletindo o tumultuoso interior de um personagem de maneira tão brilhante. Além disso, no caso do Day-Lewis, o Plainview não é mostrado por completo desde o início, pelo contrário, o ator vai descobrindo o personagem aos poucos, suas transformações, suas pertubações. Pertubações porque ele é um poço de contradições, tão profundas quanto os poços de petróleo que perfura. Ao mesmo tempo, ele é fascinante, charmoso, astuto, inteligente, consegue convencer a todos que é a melhor opção para a extração do petróleo da localidade. Mas também é inescrupuloso, é capaz de utilizar uma criança como meio para conquistar a simpatia das pessoas nas suas investidas. O desejo pelo poder é outra de suas características e Plainview demonstra fazer qualquer coisa para consegui-lo, apesar que neste aspecto, ele também é bem contraditório. Claro, poder é uma de suas ambições, mas também aparenta ser um Robbin Wood, no sentido de mostrar claramente a personalidade do pastor Eli. Só uma observação, as aparições do Paul Dano são bem convincentes e dignas de comentário. Confundiria-o, sem dúvida, com algum desses pastores que se pode ver nas madrugadas da tv brasileira.

Acredito que o diálogo travado por ele (Plainview) e seu suposto irmão, transcrito abaixo, é o código definitivo para desvendá-lo.

"Não gosto de dar explicações. Sou competitivo por natureza. Não quero que ninguém tenha sucesso. Odeio a maioria das pessoas. Às vezes, olho para elas e não vejo nada de agradável. Quero ganhar o suficiente para me isolar de todos. Vejo o que de pior as pessoas tem. Não preciso conhecê-las para saber disso. Desenvolvi o meu ódio ao longo dos anos, pouco a pouco."

Daniel Plainview

Tudo isso tem uma razão. As pessoas que sofrem para conseguir um objetivo, geralmente, tornam-se reclusas, até porque enquanto você não é ninguém, as pessoas ao redor o tratam como tal. No começo era ele e a sorte, tanto é que se percebe seu desapego pela vida, isso fica claro no início do filme, quando ele acende as dinamites no local onde trabalha, e sai de lá como se estivesse soltando traque de massa. Ou seja, foi um cara que conviveu com a morte e o perigo de perto. Trabalhou noite e dia no melhor estilo do americano capitalista. Plainview é um homem destrutivo, que luta pelo monopólio e pelo poder constantemente, e como se sabe, essa busca desenfreada tem um preço caro. E tudo isso pode ser apreciado num magnífico filme do Paul Thomas Anderson, e num incrível momento do Daniel Day-Lewis, que recebeu merecidamente seu segundo Oscar por essa atuação.

P.S.: Diferentemente do que tem acontecido, nos últimos tempos, salvo exceções, na categoria de melhor atriz, a Academia tem premiado bem os melhores atores, essa constatação vale um post.

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There Will Be Blood (Sangue Negro), Estados Unidos - 2007. Dirigido por Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Paul Dano. 158 minutos. Gênero: Drama.
Nota: 10.0